A inteligência artificial costuma ser discutida como se fosse algo abstrato, um software que vive “na nuvem”. Na prática, cada resposta de um chatbot, cada modelo treinado e cada sistema de recomendação depende de uma cadeia física bem concreta: processadores, GPUs, memória RAM, SSDs, switches de rede, energia elétrica, sistemas de refrigeração e espaço em data centers. E é exatamente nessa camada física que o mercado passou por uma das transformações mais rápidas dos últimos anos, com efeitos visíveis entre o final de 2025 e o início de 2026.
Neste artigo, explicamos o que está acontecendo com a infraestrutura que sustenta a IA, por que os preços de memória e armazenamento dispararam a partir de novembro de 2025, como isso afeta o mercado de colocation e energia, e por que empresas que não trabalham diretamente com IA também precisam prestar atenção nesse movimento.
A IA depende de infraestrutura física, e muita
Um servidor de IA moderno é uma máquina muito diferente de um servidor tradicional de aplicação. Enquanto um servidor convencional pode operar com dezenas ou centenas de gigabytes de RAM e alguns SSDs, um único servidor de treinamento de IA pode reunir oito GPUs de última geração, terabytes de memória, armazenamento NVMe de altíssima velocidade e interfaces de rede de 400 Gbps ou mais para se comunicar com outros nós do cluster.
Além das GPUs, esses sistemas consomem volumes muito maiores de componentes por unidade:
- HBM (High Bandwidth Memory): memória de altíssima largura de banda empilhada junto ao chip da GPU, essencial para alimentar os aceleradores de IA com dados;
- DRAM convencional (DDR5): servidores de IA usam múltiplos terabytes de RAM por máquina, muito acima da média histórica;
- SSDs enterprise: datasets de treinamento e checkpoints de modelos exigem armazenamento rápido em grande escala;
- Rede: switches, placas e óptica de alta velocidade para interconectar milhares de GPUs;
- Energia e refrigeração: um rack de IA de alta densidade pode consumir várias vezes mais energia que um rack tradicional.
Quando a demanda por esse tipo de máquina cresce na escala atual, o efeito se espalha por toda a cadeia de suprimentos.
Crescimento do mercado de servidores de IA
Os números mostram que o crescimento é expressivo. Segundo projeções do Gartner, os gastos globais com servidores otimizados para IA devem sair de aproximadamente US$ 280 bilhões em 2025 para US$ 353 bilhões em 2026, enquanto o mercado total de servidores deve passar de US$ 382 bilhões para US$ 466 bilhões no mesmo período. Pelas projeções citadas, os servidores otimizados para IA responderiam por aproximadamente três quartos do gasto total com servidores em 2026. Vale reforçar que se trata de uma inferência a partir das estimativas da consultoria, e não de uma participação de mercado já consolidada.
A escalada dos preços de memória e armazenamento no final de 2025
O episódio mais visível dessa transformação para quem compra hardware aconteceu no último trimestre de 2025, com pico em novembro. Em poucas semanas, os preços de memória DRAM e de SSDs subiram de forma acentuada, tanto no mercado de contratos (grandes volumes negociados entre fabricantes e integradores) quanto no mercado spot (compras avulsas).
Alguns dados ajudam a dimensionar o movimento:
- A TrendForce, uma das principais consultorias do setor de semicondutores, registrou alta de 43% a 48% nos preços de contrato de DRAM para servidores no quarto trimestre de 2025, superando com folga o aumento da DRAM para PCs;
- No mercado spot, em novembro de 2025, o preço médio dos chips DRAM mais comuns chegou a subir mais de 7% em uma única semana, com os chips avulsos passando a custar mais do que módulos prontos, um sinal clássico de escassez;
- No mesmo período, fabricantes de memória passaram a rever a forma de negociar: parte dos contratos trimestrais foi substituída por cotações mensais, refletindo um mercado em que o vendedor tem pouca necessidade de garantir preço por longos períodos.
O movimento continuou na virada do ano, ainda no campo das projeções. No início de 2026, a TrendForce chegou a projetar alta de 33% a 38% para os preços contratuais de NAND Flash no primeiro trimestre. Com o agravamento da escassez, a consultoria revisou posteriormente a estimativa para 55% a 60%, enquanto os preços contratuais de DRAM convencional, incluindo a memória para servidores, foram projetados para subir em torno de 90% no trimestre. É importante frisar que esses percentuais do primeiro trimestre de 2026 são projeções da consultoria, e não resultados finais medidos, diferentemente da alta de 43% a 48% do quarto trimestre de 2025, já registrada.
Para quem monta, mantém ou expande servidores, isso se traduziu em orçamentos de upgrade de memória e armazenamento significativamente mais altos na virada de 2025 para 2026, além de prazos de entrega mais longos e menor previsibilidade de estoque em toda a cadeia de distribuição, incluindo o mercado brasileiro, que importa praticamente todos esses componentes.
Por que a oferta não acompanhou
É importante dizer com clareza: a IA não é a única causa desse cenário. O que aconteceu foi uma combinação de fatores que se reforçaram mutuamente.
1. Realocação de capacidade fabril para HBM. Samsung, SK Hynix e Micron, que respondem pela maior parte da produção mundial de memória, direcionaram parte relevante de suas linhas de produção para HBM, a memória usada em GPUs de IA. Os fabricantes precisam decidir como alocar uma capacidade produtiva limitada entre HBM, DDR5, DDR4 e outros produtos de memória, e a priorização de HBM e de produtos de maior valor reduz a capacidade disponível para determinadas linhas de DRAM convencional. Não se trata de uma troca direta de um para um, mas o efeito líquido é menos oferta nos segmentos menos rentáveis.
2. Subinvestimento após o ciclo de baixa. Entre 2022 e 2023, o mercado de memória viveu um período de preços muito baixos e prejuízos. A resposta natural dos fabricantes foi cortar produção e adiar investimentos em novas fábricas. Quando a demanda voltou com força, a capacidade instalada não estava dimensionada para absorvê-la.
3. Fim de linha do DDR4. A transição para DDR5 e a redução gradual da produção de DDR4 apertaram a oferta justamente do tipo de memória que ainda equipa uma enorme base instalada de servidores e desktops, o que explica por que o DDR4 chegou a subir mais do que o DDR5 em alguns momentos.
4. A expansão da oferta também exige tempo. Uma nova fab de memória leva anos entre decisão de investimento e produção em volume, e a oferta também pode crescer por migrações de processo, maior densidade por wafer, expansão gradual de linhas existentes e ajustes de produção. Ainda assim, nada disso acontece de imediato. Segundo análises recentes do setor, as restrições de capacidade devem persistir em 2026 e avançar por parte de 2027, com possibilidade de maior equilíbrio no mercado de NAND apenas no segundo semestre de 2027. Isso significa que o desequilíbrio entre oferta e demanda tende a se ajustar de forma gradual, não imediata.
Além disso, a demanda tradicional não desapareceu: nuvem pública, virtualização, bancos de dados e a renovação natural de parques de servidores continuam consumindo componentes. A IA adicionou uma camada de demanda em cima de um mercado que já operava aquecido.
Energia: o novo fator limitante
Se em 2021 a pergunta ao planejar um data center era “quanto espaço temos?”, hoje a pergunta é “quanta energia conseguimos contratar, e quando?”.
A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que o consumo global de eletricidade por data centers deve praticamente dobrar até 2030, saindo de cerca de 485 TWh em 2025 para aproximadamente 950 TWh, o equivalente a cerca de 3% de toda a eletricidade consumida no mundo. A parcela desse consumo ligada a data centers otimizados para IA deve mais do que quadruplicar no período. Nos Estados Unidos, os data centers devem responder por quase metade do crescimento da demanda elétrica até o fim da década.
O Gartner, em estimativa mais recente e com metodologia própria, aponta na mesma direção: consumo global de eletricidade por data centers em torno de 447 TWh em 2025, com projeção de 565 TWh em 2026, um crescimento de cerca de 26% em um único ano, no qual os servidores otimizados para IA representam parcela crescente do total. As diferenças entre os números da IEA e do Gartner são esperadas e decorrem de metodologia, universo considerado, data da projeção e da própria definição do que conta como data center e como carga de IA. Por isso, não devem ser lidas como uma única série histórica, e sim como estimativas independentes que convergem na tendência.
O gargalo não está só na geração, mas na infraestrutura de transmissão e distribuição. Transformadores de alta capacidade, que em 2020 e 2021 tinham prazo de entrega de cerca de um ano, hoje têm filas de três a quatro anos em alguns casos, e equipamentos como switchgears estão com produção comprometida por anos. Relatos de mercado indicam que uma parcela significativa dos projetos de data center previstos para abrir em 2026 sofreu atrasos justamente por falta de equipamentos elétricos, não por falta de capital ou de demanda.
Vale notar que esse gargalo também não é exclusivo da IA: eletrificação da indústria, veículos elétricos e projetos de energia renovável disputam os mesmos transformadores e a mesma capacidade de rede.
Densidade por rack e refrigeração avançada

Outra mudança estrutural está dentro do próprio data center. Durante décadas, um rack típico consumia entre 5 e 10 kW. Servidores de IA modernos elevaram esse número para 30, 50 e, nos sistemas mais densos com GPUs de última geração, mais de 100 kW por rack.
Essa densidade tem duas consequências práticas:
- Refrigeração a ar deixa de ser suficiente nos cenários mais densos. Tecnologias como liquid cooling direto no chip (direct-to-chip) e rear door heat exchangers, antes restritas a supercomputadores, estão entrando no roadmap de data centers comerciais;
- Data centers antigos têm limites físicos. Muitas instalações foram projetadas para densidades menores e não conseguem, sem retrofit significativo, abrigar racks de alta densidade. Isso cria uma divisão no mercado entre capacidade “legada” e capacidade preparada para cargas modernas.
Mesmo empresas que nunca vão rodar um cluster de GPUs sentem esse efeito indiretamente, porque os operadores de data center passaram a priorizar projetos e investimentos voltados às cargas de alta densidade, que são as que mais crescem.
Colocation: vacância em mínimas históricas e preços em alta
O mercado de colocation reflete tudo isso de forma direta. Segundo a CBRE, a taxa de vacância nos principais mercados de data center da América do Norte caiu para 1,4% no fechamento de 2025, o menor nível já registrado. Na prática, isso significa que quase toda a capacidade construída já está ocupada ou pré-contratada, muitas vezes anos antes de o prédio ficar pronto.
Com a oferta apertada, os preços acompanharam. Ainda segundo a CBRE, o valor médio pedido para requisitos de 250 a 500 kW nos principais mercados de colocation subiu 6,6% em um ano, atingindo o recorde de US$ 196,25 por kW/mês no segundo semestre de 2025. Para requisitos maiores, de 3 a 10 MW, a alta foi de 12,5% em um ano, refletindo a disputa por espaços contíguos com energia escalável.
Um cuidado importante na leitura desses números: eles se referem a determinados mercados e perfis de contratação, e são médias de preços pedidos, não de contratos fechados. Isso não significa que todos os contratos de colocation subiram nesses mesmos percentuais. Na prática, os valores variam muito conforme cidade, instalação, disponibilidade de energia, nível de redundância, densidade por rack e volume contratado.
Esses são dados dos Estados Unidos, mas o movimento é global: os mesmos hyperscalers que lotam os mercados norte-americanos também expandem na Europa, na Ásia e na América Latina, e os componentes, equipamentos elétricos e sistemas de refrigeração vêm das mesmas cadeias de fornecimento internacionais. No Brasil, o interesse crescente de grandes operadores por novos campi de data center disputa energia, terrenos, equipamentos e mão de obra especializada com o restante do mercado.
O impacto indireto sobre quem não trabalha com IA
Talvez o ponto mais importante para a maioria das empresas seja este: você não precisa usar IA para ser afetado por essa transformação. Alguns exemplos práticos:
- Upgrades de servidores ficaram mais caros e demorados. A memória RAM e o SSD que iriam para o seu servidor de ERP ou banco de dados vêm das mesmas fábricas que atendem os clusters de IA;
- Reposição de peças exige planejamento. Manter estoque de componentes críticos ou antecipar compras de expansão deixou de ser excesso de zelo e virou prática recomendada;
- Espaço e energia em data centers estão mais disputados. Projetos de expansão que antes podiam ser decididos com poucos meses de antecedência agora concorrem com contratos de longo prazo firmados por grandes players;
- Ciclos de renovação de hardware podem se alongar. Com equipamento novo mais caro, muitas empresas tendem a estender a vida útil do parque atual, o que aumenta a importância de manutenção, monitoramento e suporte adequados.
Dados, projeções e análises: o que sabemos e o que esperamos
Ao acompanhar esse tema, vale separar três tipos de informação. Os dados de mercado são fatos já medidos: a alta de 43% a 48% na DRAM de servidor no quarto trimestre de 2025, a vacância de 1,4% em colocation, o preço recorde de US$ 196,25 por kW/mês. As projeções são estimativas de consultorias e agências sobre períodos futuros ou ainda não consolidados, como o consumo de 950 TWh em 2030 projetado pela IEA, os US$ 353 bilhões em servidores de IA previstos pelo Gartner para 2026 ou as altas de memória estimadas pela TrendForce para o primeiro trimestre de 2026, e projeções podem mudar conforme o cenário evolui, como a própria revisão da TrendForce demonstrou. Já as análises são interpretações, como a expectativa de que os preços de memória sigam pressionados ao longo de 2026 e de parte de 2027, com maior equilíbrio possível apenas mais adiante, algo que depende de variáveis como ritmo de investimento em IA, condições macroeconômicas e decisões de produção dos fabricantes.
Nenhum desses números garante um futuro específico. O que eles mostram, em conjunto, é uma direção consistente.
Conclusão: uma transformação estrutural, não uma turbulência passageira
Os dados indicam que o movimento observado entre o final de 2025 e o início de 2026 vai além de uma oscilação pontual de preços e faz parte de uma transformação mais ampla da infraestrutura digital global. A demanda por computação cresceu mais rápido do que a capacidade de produzir chips de memória, construir data centers e entregar energia, e os prazos físicos dessas três cadeias se medem em anos, não em meses.
Para empresas e profissionais de TI, a lição prática é de planejamento, não de pânico. Projetos de expansão de infraestrutura, contratos de energia, reposição de hardware e crescimento de capacidade precisarão ser pensados com horizontes mais longos do que o mercado estava acostumado. Quem mapear suas necessidades de servidores, memória, armazenamento e espaço em data center com 12, 24 ou 36 meses de antecedência vai navegar esse ciclo com muito mais tranquilidade do que quem continuar decidindo tudo em cima da hora.
A infraestrutura voltou ao centro da estratégia de tecnologia. E, pelos dados disponíveis, deve ficar lá por um bom tempo.
Referências
- TrendForce. Memory Spot Price Update: DRAM Chip Spot Prices Surpass Modules, Signaling Imminent Surge (novembro de 2025)
- TrendForce. Server DRAM Price Surge: Long-Term Strategy & Capacity Race, From Q4 2025
- TrendForce. DRAM Quotes Reportedly Shift to Monthly as Samsung Largely Halts Contracts (novembro de 2025)
- TrendForce. Memory Makers Prioritize Server Applications, Driving Across-the-Board Price Increases in 1Q26 (janeiro de 2026)
- TrendForce. Memory Price Outlook for 1Q26 Sharply Upgraded; QoQ Increases of All Product Categories to Hit Record Highs (fevereiro de 2026)
- Gartner. Gartner Says Worldwide AI Spending Will Total $2.5 Trillion in 2026 (janeiro de 2026)
- Gartner. Gartner Says Data Center Electricity Consumption to Grow 26% in 2026 (junho de 2026)
- IEA (Agência Internacional de Energia). Energy and AI, Executive Summary
- CBRE. North America Data Center Trends H2 2025
- CBRE. AI & Hyperscaler Demand Lead to Record-Low Vacancy, H1 2025
- PV Magazine USA. U.S. transformer market faces severe supply constraints as lead times extend to four years (maio de 2026)








